| @ ENERGIA RENOVÁVEL PARA O BRASIL
ELETRIFICAÇÃO RURAL NEUTRA EM CARBONO
por Sakyo Morita
@
I - ENERGIA RENOVÁVEL
E O PROBLEMA DA ELETRIFICAÇÃO
Está claro que o petróleo
será um dia exaurido, e se até lá a tecnologia de controle e aplicação
da fusão nuclear não estiver desenvolvida, a humanidade não terá
outro recurso a não ser depender da energia renovável, de origem solar, para
garantir sua sobrevivência.
Por esse ângulo, o Brasil é um dos países mais favorecidos do mundo,
em termos de terra, sol e água, além de estar também na vanguarda
atual na produção alimentícia. É compreensível,
portanto, que a China, com 1,3 bilhão de habitantes, mantenha um cálido
olhar ao Brasil, vendo nele um parceiro complementar das suas necessidades.
Entenda-se aqui por terra o produto entre área útil de terreno e preço
unitário. Nos últimos anos, os fazendeiros americanos vêm comprando
terras para cultivo de soja em termos de dezenas de milhares de hectares. Enquanto o preço
de um hectare em Ohio é de US$ 6.400, o mesmo hectare no Brasil custa US$ 160.
Naturalmente, cai o custo da produção e cresce a competitividade brasileira
no mercado internacional. E é também natural que a produção de
soja no Brasil ultrapasse a dos Estados Unidos em breve, assim como o reflorestamento, que
abordo adiante.
A Conferência de Cúpula das Nações Unidas sobre o
Desenvolvimento e Meio Ambiente instaurada no Rio de Janeiro em 1992 (Riof92) teve por tema primordial o
problema do meio ambiente e estabeleceu a regulamentação básica da
política ambiental. Em 1997, a Conferência de Kyoto de Controle do
Aquecimento Global (COP3) ensejou a assinatura do Protocolo de Kyoto. Entretanto, o que
temos até hoje é a declaração dos Estados Unidos de
afastamento do Protocolo, seguido pela Austrália. Os países desenvolvidos não
possuem uma posição definida em relação ao Protocolo de Kyoto.
Por outro lado, na época da Riof92, decidiu-se elevar o ODA (Official Development Aid) dos
países desenvolvidos aos países em desenvolvimento de 0,3% para 0,7% do PIB.
Contudo, após 10 anos, o que se verifica é uma redução no ODA
para 0,2% do PIB dos países desenvolvidos. E dentro de um clima de desconfiança
dos países em desenvolvimento para com os desenvolvidos, realizou-se em
Johannesburgo, em agosto e setembro de 2002, a Conferência de Cúpula sobre o
Desenvolvimento Sustentável (World Summit on Sustainable Development ? WSSD) da ONU. Essa conferência,
também conhecida por [Rio + 10] por ter sido efetuada 10 anos após a Riof92 onde o problema ambiental foi
abordado em nível de conscientização apenas, já adentra a fase
executiva, muito embora não tenha conseguido estabelecer metas quantitativas
claramente definidas. É o que indica a adoção do Texto Executivo pela
Conferência.
O Capítulo 2 do Texto Executivo tem por título "Erradicação
da Miséria" e define esse problema como o maior desafio que o mundo enfrenta
para o desenvolvimento sustentado, especialmente nos países em desenvolvimento.
Toma por meta a redução a 50%, até 2015, da parcela da população
mundial com renda inferior a 1 dólar por dia e sem acesso à água potável
segura. Com relação ao problema energético, faz referência
à eletrificação rural, ao desenvolvimento de formas de geração
independente distribuída, à energia renovável e, especialmente,
à intensificação do uso contínuo e eficiente da biomassa
(combustível de origem vegetal).
Conforme publicação do IEA (The World Energy Outlook 2002), 1,6 bilhão
de pessoas no mundo não possuem hoje acesso aos benefícios da energia elétrica.
Dentro de 30 anos, esse número estará ainda em 1,4 bilhão, a não
ser que se adotem medidas realmente drásticas. Isso porque a velocidade da
eletrificação se iguala praticamente à taxa de crescimento da população.
Pretendo neste pequeno ensaio abordar os temas de fontes renováveis de energia e de
eletrificação rural no Brasil.
II - ENERGIA PRIMÁRIA NO BRASIL
Em 1997, a quantidade de energia primária produzida no Brasil, convertida em petróleo,
era equivalente a cerca de 250 milhões de toneladas desse produto. Desse total, a
quantidade de energia não renovável, produzida por petróleo, gás
natural, carvão e urânio, representava 41%, enquanto a de energia renovável,
das usinas hidroelétricas, lenha, cana de açúcar (álcool e
bagaço), entre outros, representava 59%.
Durante a Conferência de Johannesburgo, a UE defendeu a proposta de que até
2010, 15% de toda a energia primária consumida no mundo fosse de natureza renovável,
tendo o Brasil apresentado também proposta semelhante. Entretanto, não se
chegou à fixação de uma meta por oposição dos Estados
Unidos e do Japão, entre outros países. Como se percebe pelos números
acima revelados, o Brasil é um dos países mais privilegiados do mundo em
termos de energia renovável.
Energia hidrelétrica
Com respeito à energia hidrelétrica, a produção brasileira em
1997 era de 279,1 bilhões de kWh/ano, a terceira do mundo atrás dos Estados
Unidos, com 358,5 bilhões, e do Canadá, com 351,2 bilhões.
Entretanto, no futuro próximo, o Brasil terá, sem dúvida alguma, a
primeira posição.
O potencial brasileiro é estimado em 1,14 trilhão de kWh/ano. Deste total,
26% são de usinas em operação ou construção e 36% já
foram levantados (por estudos de viabilidade ou projetos básicos). Os restantes 38%
são estimados.
A produção total de energia elétrica no Japão é de
1,0379 trilhão de Kwh/ano, a terceira do mundo, atrás somente dos Estados
Unidos e da China. O potencial hidrelétrico brasileiro suplanta esse total.
A energia elétrica de 3.090 kWh corresponde a 1 tonelada de petróleo,
segundo estatísticas brasileiras. Adotando-se essa conversão, o potencial
brasileiro de energia hidrelétrica de 1,140 trilhão de kWh/ano corresponde a
cerca de 370 milhões de toneladas de petróleo por ano.
Biomassa de madeira
O eucalipto foi introduzido no Brasil no século XIX por ingleses, que o trouxeram
da Austrália para ser utilizado como combustível em locomotivas a vapor. Com
a eletrificação das ferrovias e o emprego do óleo diesel, o eucalipto
passou a ser utilizado industrialmente na produção de ferro gusa de carvão
vegetal. Hoje em dia, devido à sua utilização como matéria-prima
da celulose, o Brasil é o maior produtor de celulose de eucalipto do mundo. E o
reflorestamento com eucalipto como processo de fixação do dióxido de
carbono da atmosfera vem ganhando atenção, pelas implicações
que possui para o problema do aquecimento global.
Segundo o WWF (Fundo Mundial para a Proteção da Natureza), por 500 anos
desde a descoberta pelos portugueses em 1500, o Brasil desbastou 3 milhões de km2
de florestas em seu território. Esboço a seguir um cálculo da energia
que se poderia obter supondo que se efetue o reflorestamento de 1 milhão de km2,
correspondente a um terço da área desbastada.
O crescimento anual em um hectare é de 35 ~55 m3 de lenha (volume de
toras empilhadas). Tomando-se o menor valor, ou seja, 35 m3 de lenha, ele
corresponde a 20 m3 sólidos. A massa seca absoluta (BDT) obtida desse
volume é de 10 T. Metade dessa massa é composta de carbono e, conseqüentemente,
1 hectare de plantação de eucalipto permite fixar 5 T de carbono por ano (ou
18,3 T de CO2) da atmosfera.
A cultura do eucalipto repete um ciclo que começa com o plantio das mudas, passa
por um corte no sétimo ano, com crescimento de um novo broto e termina no corte
definitivo no décimo quarto ano, quando o ciclo se reinicia com o plantio de uma
nova muda.
Geograficamente, o Brasil se situa entre 5o de latitude norte e 33o
de latitude sul, nas zonas tórrida e temperada. O volume médio de chuva,
excetuada uma parte do nordeste brasileiro, é superior a 1.000 mm/ano, o que faz
com que todo o seu território se torne apropriado para o cultivo do eucalipto. De
acordo com os dados da Cenibra (produtora de celulose de eucalipto em Minas Gerais, de
capital 100% japonês), a produção anual de 1 hectare em termos de
massa seca absoluta é de 10 T, como mencionado acima. Isso gera um calor de 4.500
kcal/kg ou 40% do calor produzido por petróleo. Por conseguinte, de 1 hectare de
plantação de eucalipto obtém-se, por ano, combustível de
biomassa equivalente a 4 T de petróleo.
De uma plantação de eucalipto em um terço da área desbastada
nos 500 anos, ou seja, em 1 milhão de km2 ou 100 milhões de
hectares, é possível obter uma quantidade de biomassa de madeira
correspondente a 400 milhões de toneladas de petróleo/ano.
Álcool
A energia de origem na cana-de-açúcar no Brasil representa 10% da energia
primária consumida e corresponde a 24,67 milhões de toneladas de petróleo.
É produzida pelo álcool proveniente da fermentação e destilação
do caldo de cana e da combustão do bagaço resultante da extração
do caldo. Em todos os 25 mil postos de abastecimento de combustível existentes no
país, são vendidos dois tipos de combustível: gasolina misturada com
24% de álcool anidro e álcool hidratado sem mistura.
Conforme estatísticas de 1998, a área plantada de cana-de-açúcar
alcança 5 milhões de hectares (50 mil km2), para uma colheita de
340 milhões de toneladas, o que dá 68 toneladas por hectare, metade
destinada à produção do açúcar e metade à do
álcool. O controle é feito com habilidade: quando o preço do açúcar
no mercado internacional sobe, a porcentagem de mistura à gasolina é
reduzida.
Pode-se extrair 60 l (litros) de álcool de 1 tonelada de cana-de-açúcar,
o que dá uma produção de aproximadamente 10 milhões de kl de
álcool. Obtém-se cerca de 4 kl de álcool por hectare. A produção
de calor do álcool é de 63% da gasolina e, conseqüentemente, obtém-se
uma quantidade de álcool correspondente a 2,5 kl de gasolina por hectare ? quantidade essa de combustível
líquido que viabiliza substituir a gasolina.
A área atual de plantação da cana-de-açúcar destinada
à produção do álcool é de 25 mil km2, mas,
havendo demanda, a área pode ser facilmente ampliada. Recentemente, na Califórnia,
foi apontada a contaminação do lençol freático por MTBE,
produto presente na gasolina de alta octanagem. Isso faz com que se inicie a substituição
desse combustível por uma mistura de cerca de 10% de álcool (etanol) em
gasolina. Pelo custo de produção competitivo, o álcool brasileiro detém
grandes possibilidades de exportação.
Petróleo
As jazidas de petróleo existentes no país somam 8,2 bilhões de
barris. A produção no ano 2000 chegava a 374 milhões de barris e a
1,02 milhão de barris/dia. A dependência da importação, que em
1995 era de 44%, caiu vertiginosamente para 25% em 2000 e, segundo prevê a Petrobrás,
em 2005 o Brasil se tornará auto-suficiente. Novas pesquisas e explorações
off shore poderão aumentar as jazidas, mas por simples estimativa, o esgotamento se
dará por volta de 22 anos.
III - O ESGOTAMENTO DO
PETRÓLEO E A CURVA DE HUBBERT
O jornal Asahi Shinbun trazia na edição de 27 de novembro de 2002 um artigo
com o título "O petróleo no mundo [por mais 50 anos] - conforme cálculos
estimativos da Federação das Indústrias Petrolíferas". De
acordo com o artigo, "a quantidade de petróleo comercialmente explorável
existente nas jazidas já descobertas atinge 908,6 bilhões de barris ao término
do ano 2000. Dividindo-se este total pela produção do ano, de 27,29 bilhões
de barris, chega-se a 33 anos para o esgotamento do petróleo em jazidas
confirmadas. Este período é 8 anos menor que a estimativa feita há 5
anos. Entretanto, pode-se esperar uma sobrevida de 17 anos por conta da descoberta de
novas jazidas e do aumento na eficiência de extração por conseqüência
do progresso da tecnologia. O esgotamento do gás natural se dará em 61 anos.
45 anos para o esgotamento das jazidas confirmadas e 16 anos de sobrevida estimada, por
conseqüência do avanço da tecnologia."
Diz a Federação das Indústrias Petrolíferas que "é
possível explorar comercialmente o petróleo por mais 50 anos", mas
penso que deve-se entender "somente por mais 50 anos".
A curva de Hubbert mencionada no título deste capítulo se refere à
previsão efetuada pelo geólogo King Hubbert do laboratório da Shell
em Houston. Em 1956, o geólogo previa que a produção de petróleo
nos Estados Unidos (48 estados) alcançaria o pico por volta de 1970, entrando em
declínio depois disso. Houve muitas contestações, mas a previsão
se realizou confirmando a sua teoria. A curva das suas previsões tem o formato de
um sino e é denominada "curva de Hubbert", sendo o pico da curva,
"pico de Hubbert".
Segundo diversos pesquisadores que deram continuidade à teoria de Hubbert, a produção
mundial de petróleo atingirá o pico de Hubbert em 2004, como estimativa
pessimista, ou no mais tardar em 2020. São estimativas grosseiras, mas a produção
se reduziria 10% em 10 anos após o pico, 30% após 20 anos, e 50% após
30 anos. É facilmente previsível o impacto negativo de tamanha redução
na economia mundial.
Para países como o Japão, onde o fornecimento da energia primária por
recursos próprios é de 22% (em 1997), e que depende quase totalmente da
importação para a obtenção de carvão, óleo cru e
gás natural para consumo, isso não deixa de ser uma questão de vida
ou morte. Fala-se em "Plano Nacional de 100 Anos", mas por melhor que se faça,
nem petróleo e nem gás natural estarão disponíveis em 2100.
Penso que seja necessário conduzir pesquisas para a sobrevivência do país
e do seu povo a partir desta dura realidade.
Após o primeiro choque do petróleo ocorrido em 1973, foi publicado o livro
"O Corte do Petróleo", de Taichi Sakaiya, que logo se tornou um best
seller. É um drama baseado na simulação realizada por jovens funcionários
do Ministério de Indústria e Comércio Exterior do Japão, que
se desenvolve a partir de uma suposta eclosão de um conflito no Oriente Médio,
fechamento do estreito de Hormuz e redução do fornecimento de petróleo
ao Japão a 30% do nível corrente até a data. Após 200 dias, as
reservas se esgotam, morrem 3 milhões e 70% do patrimônio popular de todo o
país se perde, perda essa equivalente ao dos 3 anos e 9 meses da guerra do Pacífico.
É uma obra de advertência que vale a pena ler mesmo hoje.
O esgotamento do petróleo conforme a curva de Hubbert não é tão
drástico como esse que o livro descreve. Pressupõe um período
suficiente para solucionar a crise, mas prenuncia o fim da cultura do petróleo após
o século XX. Toda precaução é pouca.
Disse acima que o Brasil dispõe de condições básicas
suficientes para enfrentar o esgotamento do petróleo. A população
atual é de 170 milhões de habitantes e o fornecimento da energia primária
é equivalente a 250 milhões de toneladas de petróleo por ano, ou seja
1,5 tonelada per capita. Admitindo-se que a população cresça no
futuro e vá a 250 milhões de habitantes e que o fornecimento per capita
duplique e chegue a 3 toneladas por ano, o fornecimento anual para todo o país
seria equivalente a 750 milhões de toneladas de petróleo. Segundo as
estimativas já apresentadas acima, com um fornecimento de energia hidrelétrica
equivalente a 370 milhões de toneladas e com a energia da biomassa obtida com o
reflorestamento de 1 milhão de km2 correspondente a um terço da
área desbastada no passado, equivalente a 400 milhões de toneladas, chega-se
ao total equivalente a 770 milhões de toneladas de petróleo, suficiente para
se enfrentar a crise.
IV - CDM (CLEAN DEVELOPMENT MECHANISM - MECANISMO DE DESENVOLVIMENTO LIMPO) DO
PROTOCOLO DE KYOTO
O Brasil poderá reflorestar 1 milhão de km2 com eucalipto e com
isso produzir 1 bilhão de toneladas anuais de massa seca absoluta de madeira para
produzir energia, e assim solucionar o seu problema energético. Porém, há
uma vantagem adicional nisso, que está na possibilidade de fixação de
500 milhões de toneladas de carbono por ano. O Brasil não tem a
responsabilidade da redução de carbono expelido, e aí está um
produto promissor de exportação no futuro para o controle do aquecimento
global.
Mas, existe, sobretudo, uma condição que faz com que o Brasil desenvolva o
reflorestamento como estratégia nacional. Em 1960, a população
brasileira era de 60 milhões de habitantes, dos quais 36 milhões residindo
na zona rural e 24 milhões em áreas urbanas. Atualmente, a população
é de 170 milhões, sendo que a população rural permanece nos 36
milhões, enquanto a urbana teve um crescimento superior a 5 vezes, chegando a 134
milhões. É voz corrente que o maior problema social no Brasil é hoje
a segurança. A infra-estrutura de empregos, habitação, higiene e
educação não conseguiu acompanhar este surto de expansão da
população urbana, produzindo o problema.
O afluxo aos centros urbanos dos trabalhadores braçais do campo foi compensado na
lavoura pela mecanização, fruto da cultura do petróleo. A causa maior
é a perda de postos de trabalho no campo. Não é possível
depositar esperanças na lavoura para o retorno dos trabalhadores ao campo.
Entretanto, o reflorestamento exige um trabalhador direto para 20 hectares de área
reflorestada. Para 1 milhão de km2 de área reflorestada, exige-se
o emprego de 5 milhões de trabalhadores, o que possibilita o retorno de mais de 20
milhões de pessoas à área rural, incluindo a família. O
problema está em saber se essas famílias, acostumadas à vida urbana
com as facilidades da eletricidade se sujeitariam à vida desprovida de iluminação
elétrica à noite e sem televisão. É onde a necessidade da
eletrificação rural se torna imperativa.
Para analisar a situação japonesa, faço aqui uma comparação
das condições básicas existentes nos EUA, UE e Japão:
Condições |
País |
EUA |
EU |
Japão |
Superfície
(milhões de km2) |
9.364 |
3.243 |
378 |
População
(milhões de habitantes) |
276 |
375 |
127 |
PIB
(bilhões de dólares) |
7.903 |
8.312 |
4.089 |
Densidade
populacional (hab/km2) |
29 |
118 |
335 |
Emissão
de carbono em 1999 (milhões de T) |
1.520 |
913 |
307 |
Emissão
de carbono per capita (kg -C) |
5.809 |
2.435 |
2.415 |
Emissão
de carbono por 1000 dólares de PIB (kg -C) |
192 |
110 |
75 |
Emissão
de carbono por hectare (kg -C) |
1.623 |
2.815 |
8.112 |
PIB
por hectare (US$) |
8.440 |
25.631 |
108.175 |
A comparação
dos números desta tabela evidencia com clareza que, com as desvantagens do território
reduzido e da alta densidade demográfica, a administração econômica
posta em prática no Japão é a mais eficiente de todo o mundo. Para
que isso fosse possível, o Japão teve de importar diferentes recursos de
todas as partes do mundo, inclusive o petróleo, cuja dependência da importação
é praticamente integral. Assim, a emissão do carbono por unidade de superfície
supera substancialmente a dos EUA e UE. A emissão de carbono por hectare no Japão,
superior a 8 toneladas, ultrapassa em muito as 5 toneladas de carbono por hectare fixado
pelo reflorestamento de eucalipto no Brasil.
Até a realização do COP6 (2a Parte) em julho de 2001, em
Bonn, este autor acreditava que grande parte do compromisso de redução da
emissão de carbono assumido pelo Japão, de 6% (mais 10% estimados por conta
de acréscimos posteriores, totalizando 16%) no Protocolo de Kyoto, pudesse ser
cumprido em CDM conjunto entre Brasil e Japão com a fixação do
carbono proporcionado pelo reflorestamento no Brasil. A UE, embora os países
integrantes possuam obrigações diferentes de cumprimento da taxa de redução
da emissão, decidiu adotar uma meta global para toda a área de 8% por um
processo conhecido como EU Bubble. A UE pode justificar-se por ser entendida como uma região,
mas a atmosfera é, por natureza, expansiva, e portanto não haveria razões
impeditivas a um bubble nipo-brasileiro. E também, pelos números do quadro
acima, é difícil acreditar que o Japão consiga resolver o seu
problema sozinho.
Tomando a emissão de carbono no Japão em 1990, de 300 milhões de
toneladas, 6% corresponderiam a 18 milhões de toneladas e 16% a 48 milhões,
quantidades essas compensáveis por parcela dos 500 milhões de toneladas
resultantes dos cálculos acima efetuados. Entretanto, ao ver o Acordo de Bonn, não
pude acreditar no que lia. O limite superior do CDM está estabelecido em 1%. Em
termos de volume, o Japão havia concordado com 3 milhões e ratificado o
Protocolo, impossibilitando portanto alterações desse volume a não
ser após o período de validade de 2008 ~ 2012. A idéia de um plano
conjunto nipo-brasileiro não passou de um sonho. (Consultar relatório sobre
reflorestamento no Brasil, elaborado antes do COP6.5 de Bonn em julho/ 2001 em www.bizpoint.com.br/jp/reports/morita/010510.htm).
Para cumprir o Protocolo de Kyoto, o Japão pretendia construir 20 usinas nucleares,
mas esse projeto foi paralisado por objeções levantadas em plebiscito da
população, e também recentemente pelo incidente da ocultação
da ocorrência de defeitos nos geradores nucleares pela Companhia Energética
de Tóquio. Usinas termoelétricas deverão compensar as nucleares.
O gerador no. 1 da Primeira Usina Nuclear de Fukushima, interrompido por um ano, é
de 460 mil kW e, portanto, pequeno. Admitindo-se uma eficiência de operação
de 80%, a energia gerada em um ano seria de 3,2 bilhões de kWh. Compensando essa
energia nuclear por termoelétrica, a emissão de carbono seria de 340 mil
toneladas, no caso de termoelétrica LNG de ciclo combinado, ou 780 mil toneladas no
caso de termoelétrica a carvão. Pode-se dizer que o incidente acima abalou
as bases da estratégia energética japonesa.
A geração hidrelétrica é livre de carbono e a biomassa
é um combustível que fixa o carbono existente na atmosfera, sendo, portanto,
neutro em emissão de carbono. O Brasil não precisa preocupar-se tanto com
problemas futuros de energia. O maior problema do país está na solução
da "desigualdade entre ricos e pobres" e da "miséria" em si.
V - A "ERRADICAÇÃO DA MISÉRIA" PELA ELETRIFICAÇÃO
RURAL
Índices como o PIB per capita fazem do Brasil um país medianamente avançado.
Entretanto, há muito tempo o Brasil vem sendo chamado de Belíndia, ou seja,
uma mistura de Bélgica e Índia, em uma referência à distribuição
injusta da renda no país. Tomando por base o índice Gini do Banco Mundial, o
Brasil com 59,1 (1997) se equipara à África do Sul com 59,3 (1994). Por
comparação, menciono a seguir os índices Gini de alguns países:
Japão 24,9 (1993), China 40,3 (1998), Índia 37,8 (1997), Inglaterra 36,1
(1991) e Estados Unidos 40,8 (1997).
Também a renda dos 20% mais ricos do País supera a dos 20% mais pobres em 31
vezes (maior proporção no mundo todo) ? uma drástica diferença.
Acresce ainda que, devido à enorme extensão territorial de 8,50 milhões
de km2, reporta-se que em regiões de baixa população, 20
milhões de habitantes vivem sem energia elétrica. Segundo Lênin,
"não existe socialismo sem eletrificação", mas não
se trata apenas do socialismo. Em qualquer parte do mundo, a "erradicação
da miséria" é nada mais do que sonho enquanto não se puder
dispor da energia elétrica.
Nos países desenvolvidos, surgem cidades ativas 24 horas onde o dia e a noite se
tornam indistintos, enquanto em regiões não eletrificadas, 10 mililitros de
querosene são queimados por hora para se obter uma iluminação de 2
watts, comparável a de uma lanterna de bolso, para passar a noite.
Com freqüência, a televisão nos mostra cenas de crianças do
interior transportando água. Admitindo por hipótese que vasilhas de 10
litros de água sejam carregadas ladeira acima, vencendo um desnível de 50
metros, é de se indagar quantos litros poderiam ser transportados por dia, mesmo
por adultos. Se, por exemplo, 100 watts de potência elétrica estivessem
disponíveis, uma bomba poderia armazenar, por dia, 5000 litros, ou seja, 500
vasilhas de 10 litros de água por dia, descontados 40% por conta da eficiência
do motor elétrico x eficiência da bomba acrescida das perdas no conduto. A
eletrificação libertaria a criança do trabalho de transportar
água.
Quanto à "água potável segura" ao qual a ONU se refere no
programa de "erradicação da miséria", proporcionando-se uma
queda, a filtragem da água poderá ser feita com facilidade. E com pequena
potência elétrica é possível atribuir à água um
pH ácido para esterilização e desinfecção.
Em épocas passadas, quando a televisão se transmitia por ondas terrestres,
era impossível cobrir todo o território nacional com a televisão
educativa. Hoje em dia, basta um satélite estacionário para solucionar esse
problema.
Evidentemente, o acesso à energia elétrica é o primeiro passo para a
redução da distância que separa pobres e ricos.
VI - O EXEMPLO DA ELETRIFICAÇÃO NO BRASIL POR REDE
O processo mais simples de eletrificação é por conexão
à rede (de transmissão e distribuição), o que não
é fácil para um país com a dimensão do Brasil.
Os seguintes dados podem ser encontrados no Programa de Desenvolvimento das Nações
Unidas (UNDP) e no relatório do Banco Mundial (2002):
- Os estados nordestinos brasileiros da Bahia, Ceará e Minas Gerais ocupam ao todo
1,30 milhão de km2. Em 1996, 2,54 milhões de famílias
habitavam a área rural desses três estados, das quais 1,25 milhão vive
sem a eletrificação.
- A densidade populacional da área é de apenas 1,95 família por km2
e, por isso, é comercialmente inviável às companhias de eletricidade
efetuar a eletrificação por conexão à rede. Em 1997, 25.000
famílias foram conectadas à rede. Nesse passo, as conexões até
2005 não passarão de 200 mil famílias, deixando ainda 1,05 milhão
sem eletricidade.
Obviamente, se a eletrificação por conexão à rede é difícil,
será necessário efetuá-la sem rede, ou seja, por intermédio de
geração independente distribuída. A agricultura no Brasil hoje em
dia, com exceção dos pequenos produtores de verdura de áreas
suburbanas, emprega tratores em sua maior parte. A demanda de energia elétrica
surge para o uso doméstico, para iluminação e aparelhos eletrodomésticos.
Por conseguinte, é possível admitir-se que 1 quilowatt satisfaça
essas necessidades. A ligação de dois pontos por km2 com essa
demanda torna inviável a conexão à rede.
VII - ELETRIFICAÇÃO POR MEIO DE GERAÇÃO
INDEPENDENTE DISTRIBUÍDA
Como possibilidades de fontes
distribuídas de energia podem ser considerados: o gerador elétrico a motor
diesel; e na categoria de fontes renováveis, a geração hidrelétrica,
a eólica, a solar e por biomassa.
Caso a gasolina seja facilmente disponível, bastaria trazer um gerador portátil
de 1 kW e o problema estaria resolvido. Entretanto, este procedimento é viável
para países de alta renda. Em países onde a renda é baixa o custo se
torna proibitivo.
O Banco Mundial possui dados comparativos de preços da gasolina. Segundo esses
dados, o preço da gasolina nos países não produtores está
entre 40 cents e 1 dólar o litro. Por outro lado, o PIB per capita dos países
varia de cerca de 100 dólares, entre os mais pobres como a Etiópia e Moçambique,
a 30.000 dólares aproximadamente, em países como o Japão e os Estados
Unidos, verificando-se aí uma diferença de 300 vezes. O preço da
gasolina nos Estados Unidos é de 47 cents, enquanto na Etiópia é de
46 cents e em Moçambique, 56 cents.
O PIB brasileiro é muito superior ao dos países africanos pobres, mas as
desigualdades de renda na população são também muito grandes.
Assim, recebo freqüentemente consultas de lavradores e fazendeiros em busca de
energia barata, quanto à possibilidade de se gerar energia por intermédio de
micro-geradores hidrelétricos, mesmo que fossem algumas centenas de watts.
A potência obtida na saída de um gerador hidrelétrico é
determinada pelo produto da queda d'água pela vazão. A especificação
da turbina para uma mesma potência de saída de 1 kW varia com a queda,
tornando a geração imprópria para uma padronização de
equipamento. Em geradores que operam em água corrente sem reservatório, a
geração é impossível com a redução da água
na estação seca. Recorde-se que mesmo empregando usinas com barragens,
vantajosas para o controle da produção de energia, o Brasil, 95% dependente
da energia dessas usinas, decretou poupança obrigatória de 20% do consumo
por 8 meses a partir de junho de 2001.
O fornecimento de energia deve ser garantido a qualquer momento. Neste aspecto, o gerador
eólico não opera sem vento. A energia solar é naturalmente
interrompida à noite, mas mesmo durante o dia, o tempo chuvoso ou nublado altera a
potência de saída do gerador solar. Assim, para se garantir uma saída
estável é necessário empregar um dispositivo acumulador de energia.
Contudo, considerando-se por hipótese o uso de um acumulador de chumbo, é
necessário um acumulador com 1 tonelada de chumbo para armazenar 50 kWh de energia.
Por conseguinte, tanto o gerador eólico quanto o solar podem ser bem aproveitados
conectados à rede em sistema, para poupar o combustível da usina termoelétrica
ou as reservas de água de uma hidrelétrica de um lado e, de outro, para
receber fornecimento para a estabilização da energia gerada quando a produção
estiver em queda. Como fontes independentes, a sua confiabilidade é baixa.
É possível gerar energia com um motor gerador tendo o álcool por
combustível, mas sendo o álcool utilizado em mistura com a gasolina, o seu
preço está naturalmente atrelado ao da gasolina. Não deixa de ser um
combustível precioso, de fácil manipulação, produzido por
biomassa. Contudo, devendo passar por um processo de fermentação na fabricação,
esse custo, somado aos da colheita da cana-de-açúcar e da distribuição,
fazem dele um combustível de alto luxo para emprego em geradores elétricos.
VII - BIOMASSA DE MADEIRA E O MOTOR STIRLING
Acumular energia é um processo demasiadamente custoso. Para garantir um
fornecimento de energia estável, não há portanto outro recurso a não
ser armazenar a fonte da energia. Para tanto, é desejável que o combustível
possa ser armazenado na atmosfera sob forma sólida ou líquida. O álcool
apresenta os problemas já descritos acima. Após analisar as fontes de
energia hídrica, eólica, solar e alcoólica, acredito que o emprego da
biomassa de madeira (cavaco de eucalipto) como combustível deve proporcionar o
menor custo de geração.
Há 20 anos, tive a oportunidade de conhecer em serviço um diretor da
área técnica de um grupo empresarial que se dedicava à mineração
de calcário e produção de cimento no Amazonas. Esse diretor, já
idoso na época, em uma conversa em que relatava as suas experiências de
longos anos no Amazonas, dizia que "a eletricidade mais barata que se pode obter no
Amazonas é a produzida por locomotiva velha adquirida; levanta-se a roda de tração
e instala-se nela uma correia para acionar o gerador. Quanto ao combustível,
é só desbastar uma pequena área da floresta e se obtém em
abundância." Isso me deixou uma profunda impressão, que guardo até
hoje. Havia, antigamente, ferrovia na Amazônia, substituída posteriormente
por rodovia, automóveis e caminhões. Durante viagens, tive a oportunidade de
ver muitas vezes velhas locomotivas enferrujadas colocadas em abrigo. As locomotivas a
vapor têm baixa eficiência, mas se levadas a optar entre 5 quilos de lenha
seca e 1 kWh de energia elétrica, acredito que muitas pessoas irão dar
preferência à eletricidade.
Diversas tecnologias estão sendo pesquisadas para a utilização da
biomassa de madeira como combustível sólido, líquido ou mesmo gasoso,
mas o uso da biomassa como combustível sólido, em forma de cavaco, pellets
ou carvão é a que se tem atualmente em prática. Além dessa,
outras tecnologias se acham ainda em estado de comprovação ou pesquisa, não
estando suficientemente consolidadas para a aplicação imediata em eletrificação
rural.
O cavaco é obtido pelo despedaçamento e pulverização da
madeira. O potencial calorífico depende da percentagem de umidade absorvida, mas
com a secagem efetuada até 0% de umidade é possível utilizar 100% da
energia armazenada pelo processo da fotossíntese vegetal. Os pellets são
formados por compressão de cavaco de dimensões minúsculas ou
serragem. Naturalmente, perdas de energia ocorrem durante o estágio de conformação
e, assim, a eficiência de conversão é de 60% ~ 80%., sem mencionar
ainda a energia necessária no processo de transporte entre a ida e a volta à
fábrica.
O carvão de madeira, obtido por carbonização, tem a capacidade calorífica
de 6.500 ~ 8.000 kcal/kg, portanto grande, e peso reduzido. Mas a perda de energia no
processo de carbonização é também grande, e a eficiência
de conversão não passa de 23% ~ 43%.
Os tratores para a agricultura dispõem do Power Take-off (dispositivo de extração
da potência motora), que pode ser utilizado para a produção de cavaco,
que assim pode ser fabricado no local.
Plantando eucaliptos nos terrenos da fazenda, derrubando-os após sete anos e
transformando a madeira em cavaco, pode-se obter combustível livre de custo. E se
houver equipamento para queimar o cavaco ressecado e produzir energia elétrica, a
eletrificação rural terá dado um grande passo. Motores de combustão
interna não podem ser utilizados, pois não atendem a essas condições.
Como conseqüência lógica, surge aqui o motor Stirling representando os
motores de combustão externa.
O motor Stirling foi inventado em 1816 pelo pastor de igreja escocês Robert
Stirling. Na época, ocorriam sucessivos acidentes de explosão em caldeiras
de motores a vapor. A procura por um motor seguro deu origem à invenção.
O princípio de funcionamento é simples. Trata-se de um motor alternativo de
combustão externa selado, que utilizava inicialmente como elemento gasoso de
acionamento o ar, posteriormente substituído por gases não condensáveis
como o hélio e o hidrogênio. Ao contrário dos motores de combustão
interna, não há restrições para o uso do combustível, e
cavaco de eucalipto pode ser naturalmente utilizado. Detalhes podem ser obtidos em publicações
como "Teoria e Projeto do Motor Stirling" (Iwao Yamashita, editora Sankaido, em
japonês, ou diversas outras publicações em inglês).
No século XIX, após a invenção, o desenvolvimento da máquina
a vapor e o surgimento do motor de combustão interna levaram o motor Stirling
à extinção. No período antecedente à 2a
Grande Guerra, quando a Holanda efetuava pesquisa de recursos em Bornéu, sua colônia,
geradores elétricos pequenos e portáteis se fizeram necessários para
a iluminação dos acampamentos instalados nas selvas. Deviam aceitar qualquer
tipo de combustível e ser silenciosos, o que fez com que as atenções
se voltassem para a combinação do motor Stirling e gerador. O
desenvolvimento desse conjunto, iniciado pela Phillips em 1938, prosseguiu durante todo o
período da guerra.
Após 1970, o Ministério da Energia americano procurava por um motor que
possibilitasse economia substancial de combustível. Com isso, o foco das atenções
se concentrou no motor Stirling e na turbina a gás. As pesquisas foram reiniciadas.
Mesmo o Japão, nos anos 1970, iniciou o "Desenvolvimento da Pesquisa do Motor
Stirling para Navios", por iniciativa do Ministério de Transportes, e o
"Desenvolvimento da Pesquisa do Motor Stirling de Uso Geral", do Projeto
Moonlight, já na década de 1980. Entretanto, essa pesquisa não foi
continuada no Projeto New Sunshine posterior, onde se menciona apenas que a pesquisa
"contribuiu para a consolidação da engenharia de aplicação".
Em comparação ao motor de combustão interna, o motor Stirling
apresenta as desvantagens do peso e da capacidade. Operacionalmente, apresenta ainda
defeitos vitais no acionamento e na resposta à variação da carga.
Assim, é compreensível que ele não seja adequado ao atendimento da
demanda maior do que a prevista nos motores para automóveis. Além do mais,
as esperanças do futuro para esse mercado estão depositadas nas células
de combustível, cuja comercialização já se iniciou. Ao que
parece, o motor Stirling está fadado à terceira derrota ante as células
de combustível, após já ter sido derrotado pela máquina a
vapor e pelo motor de combustão interna.
IX - A ELETRIFICAÇÃO RURAL NO BRASIL E A VIABILIDADE DO MOTOR
STIRLING
Contudo, como se concluiu na discussão do problema de eletrificação
no Brasil, se o único combustível utilizável é o derivado da
biomassa (cavaco de eucalipto), o grupo motor Stirling com gerador elétrico que a
Phillips precisou antes da guerra em Bornéu poderá voltar a ser procurado,
ressuscitando possivelmente o motor.
Nos Estados Unidos, já existe um fabricante que efetuou teste de funcionamento por
40.000 horas em motor Stirling com combustível de biomassa (pellets de madeira)
acoplado a um gerador elétrico de 1 kW.
O fabricante é a empresa Sunpower, com sede em Ohio (www.sunpower.com), e o grupo gerador tem o nome
comercial "Biowatt".
Conforme dados da empresa (A Biomass-Fired 1 kW Stirling Engine and Its Application in
South Africa), o equipamento produz 1 kWh de energia elétrica e 4 kWh de calor com
um consumo de 1,2 ~ 1,4 kg por hora de combustível de biomassa. Considerando-se que
a capacidade calorífica da biomassa é de 4.500 kcal/kg, a eficiência
de geração é de 14% ~ 19%, que penso ser perfeitamente condizente
à aplicação. E, se o calor for utilizado para a secagem da biomassa,
será possível obter uma quantidade de calor próxima à teórica.
O "Biowatt" tem uma construção muito simples. Utiliza um motor
Stirling de cilindro único e pistão livre, acoplado a um gerador linear de
corrente alternada, de ímã permanente. A estrutura principal do motor -
gerador pesa 20 kg. Segundo cálculos da Sunpower, o custo de fabricação
para 10.000 unidades é de 350 dólares por unidade. Não há
indicação de preço do dispositivo de combustão.
Quanto ao custo da geração de energia, conforme dados da empresa Sunpower
(Micro-Biomass Electric Power Generation) ela está entre 6 ~12 cents por kWh
independentemente da potência de saída obtida, tanto em operação
de unidades isoladas quanto em sistemas com diversas unidades operando em paralelo, embora
dependa do custo do combustível. Não é portanto muito diferente do
custo da energia elétrica para uso doméstico nos centros urbanos.
X - CONCLUSÃO
Não é preciso dizer que o combustível de biomassa, neutro em emissão
de carbono, é preferível ao combustível petrolífero,
particularmente sob o ponto de vista de controle do aquecimento global.
Também, não existe solução para o problema do aquecimento
global sem que haja transferência de fundos e tecnologia dos países
desenvolvidos aos países em desenvolvimento, como deixou perceber o confronto entre
o norte e o sul durante o COP8 de Nova Délhi aberto em 1 de novembro de 2002.
Tecnologias já arquivadas nos países desenvolvidos, como por exemplo a do
motor Stirling, aqui tratado, podem ser a chave para a solução de problemas
nos países em desenvolvimento.
Consta que os investimentos no Japão para a pesquisa de desenvolvimento do motor
Stirling já chegam a 10 bilhões de yenes (80 milhões de dólares).
Quantos da população de 1,6 bilhão que vive sem energia elétrica
no mundo virão a utilizar a biomassa é ainda uma incógnita.
Entretanto, se a tecnologia que o Japão possui em trocadores de calor, em selagem,
em materiais como o ímã permanente e em construção de motores
Stirling, assim como a de ponta em controle eletrônico para carros híbridos e
células de combustível, for lançada em um dispositivo gerador de
eletricidade de 1 kW como contribuição ao processo de eletrificação
para a "erradicação da miséria", memoráveis
resultados serão, sem dúvida alguma, obtidos.
É grande a esperança depositada na tecnologia japonesa para o progresso da
eletrificação rural dos países em desenvolvimento.
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